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Centro Voxius de Liberdade de Expressão · Instituto Sivis

Melhor prevenir do que remediar: lições do DSA para o Brasil

O Digital Services Act europeu virou referência mundial e inspira o debate brasileiro. Duas pesquisas do Instituto Sivis mostram como seu desenho pode incentivar plataformas a remover conteúdo lícito, e o que o Brasil precisa evitar ao criar suas próprias regras.

A conta da plataforma

Chegou uma denúncia. O que pesa mais?

Manter conteúdo duvidoso

Alto risco

Multa de até 6% do faturamento mundial e perda da imunidade.

Remover conteúdo lícito

Quase nenhum risco

Em geral, não há punição.

Resultado: na dúvida, apaga.

6%

do faturamento anual mundial é o teto das multas do DSA.

45 mi

de usuários mensais é o limite a partir do qual valem as obrigações reforçadas.

2x

mais chance de publicações em inglês afro-americano serem marcadas como ofensivas.

0

estudos em português sobre os efeitos do DSA na remoção de conteúdo.

Entenda

O problema

Uma escolha desigual

Quando uma plataforma recebe uma denúncia, ela tem duas opções. Pode manter o conteúdo e correr o risco de ser punida, caso ele seja considerado ilegal depois. Ou pode removê-lo e, em geral, não pagar nada por isso. Diante dessa escolha desigual, a resposta menos custosa para a empresa é apagar.

A literatura chama isso de efeito better safe than sorry, ou “melhor prevenir do que remediar”. O resultado tem nome técnico, over-removal, que significa a remoção preventiva de conteúdo que era lícito.

over-removal

remoção preventiva de conteúdo lícito

Denúncia recebida

Manter

Se o conteúdo for considerado ilegal depois, a plataforma pode ser punida.

Custo alto

Remover

Mesmo que o conteúdo fosse lícito, em geral não há consequência.

Custo quase zero

Apaga.

Quem perde não é só quem publicou

Quem publicou

tem o conteúdo lícito apagado

Quem deixou de ler

perde acesso à informação

O debate público

que deixou de acontecer

500 horas por minuto · 500 milhões por dia ·

A escala do desafio

Uma decisão de cautela parece pouco. Agora multiplique.

Diante do volume de conteúdo que circula nas plataformas, a moderação automatizada deixou de ser uma escolha técnica e se tornou uma necessidade estrutural. É nessa escala que o “melhor prevenir do que remediar” deixa de ser uma decisão isolada e passa a funcionar como política aplicada em série.

YouTube · fevereiro de 2020

500 horas

de vídeo carregadas a cada minuto

Equivale a

82 anos*

de vídeo enviados por dia (cerca de 720 mil horas)

*Cálculo do Sivis a partir do dado do YouTube.

Twitter, atual X

500 mi

de publicações por dia

O que o DSA faz

E por que isso preocupa?

O DSA está em vigor na União Europeia desde fevereiro de 2024. Ele não pune diretamente quem remove demais, mas cria incentivos que se somam em camadas.

01Arts. 6º e 16

A notificação vira gatilho

A plataforma só fica isenta de responsabilidade enquanto não tiver “conhecimento efetivo” de que um conteúdo é ilegal. Qualquer notificação de usuário pode gerar esse conhecimento, e a partir daí manter o conteúdo vira um risco.

02Art. 74

A multa dá o tamanho do risco

As multas podem chegar a 6% do faturamento anual mundial da empresa. Com valores desse porte, remover em excesso passa a ser a política comercialmente mais segura.

03Prazos e automação

A pressa favorece a máquina

A exigência de agir rápido deixa pouco espaço para análise humana e empurra a moderação para sistemas automatizados, que falham com ironia, contexto e intenção. Precisão estimada na análise de texto: 70% a 80%. De cada 10 decisões, 2 a 3 podem estar erradas.

04Arts. 34 e 35

Conceitos vagos nas grandes plataformas

As plataformas com mais de 45 milhões de usuários na UE precisam avaliar e mitigar “riscos sistêmicos”, como “efeitos negativos sobre o discurso cívico”. Sem definição clara, a forma mais simples de provar diligência ao regulador é moderar com mais rigor.

05Art. 22

Denunciantes com prioridade

Entidades certificadas como trusted flaggers têm suas denúncias tratadas com prioridade. Não há limite para o número dessas entidades, e a certificação fica a critério das autoridades nacionais.

Em cada um desses mecanismos, errar para o lado da permanência custa caro, enquanto errar para o lado da remoção quase não custa nada.

Quem paga essa conta?

A remoção excessiva não atinge todos da mesma forma

A literatura aponta efeitos mais pesados sobre alguns grupos.

2x

Minorias linguísticas e raciais

Publicações em inglês afro-americano têm o dobro de chance de serem marcadas como ofensivas. Conteúdo jornalístico em árabe também tende a ser removido por viés algorítmico.

LGBTQIA+

Pessoas LGBTQIA+

Termos reapropriados pela própria comunidade são confundidos com discurso de ódio.

Voz

Ativistas e vozes dissidentes

Há casos documentados de remoção de informações sobre a violência contra o povo Rohingya e de contas ligadas ao movimento Occupy Wall Street.

…

Chilling effect

Quem vê conteúdos parecidos sendo apagados passa a se calar antes mesmo de publicar.

E o Brasil?

Do Marco Civil ao “DSA brasileiro”

2014

Marco Civil da Internet

Construído de forma multissetorial, o modelo previa que a plataforma só respondia por conteúdo de terceiros se descumprisse uma ordem judicial (art. 19).

2025

Decisão do STF

O Supremo declarou esse modelo parcialmente e progressivamente inconstitucional e criou hipóteses de responsabilização sem ordem judicial prévia, como o impulsionamento pago de conteúdo ilícito e a “falha sistêmica” diante de conteúdos graves.

Hoje

Debate legislativo

Depois da retirada de pauta do PL 2.630/2020, o governo anunciou um novo projeto, apelidado de “DSA brasileiro”. Em paralelo, resoluções do TSE criaram ritos rápidos de remoção de conteúdo em período eleitoral.

Quatro riscos de uma regulamentação mal desenhada

01

Remover o que é legítimo

Remoções arbitrárias atingem conteúdos legítimos e podem, paradoxalmente, alimentar a desinformação.

02

Criar uma elite de denunciantes

Sistemas de denúncia qualificada podem favorecer atores institucionalizados em detrimento de jornalistas independentes, sejam progressistas ou conservadores, de pequenas organizações e de cidadãos marginalizados.

03

Sufocar plataformas menores

Custos de conformidade altos funcionam como barreira de entrada e concentram o mercado nas grandes empresas.

04

Concentrar poder sem controle

Uma agência sem participação social, transparência e freios fica exposta à captura e ao aparelhamento político.

Os mais expostos seriam

jornalistas · defensores de direitos humanos · cidadãos com pouco acesso à Justiça que criticam o poder público

A lacuna

O Brasil debate o DSA com pesquisa feita no exterior

Ao mapear a produção acadêmica sobre o DSA e a remoção excessiva de conteúdo, encontramos 14 estudos que tratam diretamente do tema, e todos estão em inglês. Entre os 28 trabalhos em português localizados na busca, nenhum tinha como foco os efeitos da lei europeia sobre a liberdade de expressão.

Isso significa que o país discute adotar regras inspiradas no DSA apoiado em diagnósticos produzidos para outra realidade. Ainda não sabemos como esses sistemas lidam com o português falado no Brasil, com suas gírias, seus regionalismos e suas formas próprias de fazer política.

Em inglês

781 registros encontrados →

14 estudos incluídos

Em português

28 registros encontrados →

0 estudos incluídos

nenhum estudo atendeu aos critérios

Os dois estudos apresentados nesta página são um primeiro passo para mudar esse quadro.

Os estudos

Leia as pesquisas completas

Capa do relatório “Better safe than sorry”: uma revisão sobre os incentivos ao over-removal no Digital Services Act

“Better safe than sorry”: uma revisão sobre os incentivos ao over-removal no Digital Services Act

O estudo mapeia o que a literatura acadêmica já documenta sobre o DSA e a remoção excessiva: quais mecanismos a incentivam, quem é mais afetado e onde ainda faltam evidências.

Capa do relatório Um DSA Brasileiro? Diagnósticos e proposições para a regulação de plataformas, em sintonia com a liberdade de expressão e com os direitos humanos

Um DSA Brasileiro? Diagnósticos e proposições para a regulação de plataformas, em sintonia com a liberdade de expressão e com os direitos humanos

O relatório analisa as primeiras lições do DSA e propõe diretrizes para uma regulação brasileira compatível com a liberdade de expressão e os direitos humanos.